segunda-feira, 31 de julho de 2017














o pai era triste
a mãe era triste
um casal de filhos
os dois eram tristes

os  velhos se foram
os filhos ficaram
ainda mais tristes
e logo partiram

foram tão tristes
enquanto viveram
talvez se alegraram
depois que morreram















aquilo que fere
aquilo que alegra
o sol ilumina o verde rosa das azaléas
o lamento se esconde num canto sombrio
aquilo que fica do que vai embora
quando as janelas se abriam
alguém olhava por elas
e se alegrava com as coisas que via
quem se demora
não esquece as manhãs de domingo
são tantos os mortos
quanto eram os vivos
façamos de conta que adormecem
enquanto fingimos que estamos despertos















sem lamentos ou desejos
se houve um beijo que ficou esperando
se não veio quem deveria ter vindo
se as cinco da tarde o sol já se punha
nuvens escuras se misturam ao vinho
flores sem graça perdidas na mesa
uma nave circula em volta da terra
um abelha se bate contra a janela
lá embaixo o tumulto contínuo
para-choques, gravatas, perfumes
vão indo a toda demora
voracidade que devora a si mesma
um cigarro reclama dores no peito
um camelo dispara pela avenida
alguém me olha como se aqui estivesse
efeito do vinho que bebo sozinho













coisa de gregos
que me deixam confuso
as palmeiras do alto me olham
enquanto me perco por estas ruas

um pensamento afirma
aquilo que outro refuta
o vento inquieta e persiste
a palmeira se entrega e resiste

não sei me explico
falando de gregos, palmeiras e vento
sei que me encanto 
com o vento agitando as palmeiras
sei que não alcanço
o pensamento dos gregos














uma casa vazia
não faz diferença
se não se soubesse
como ela era
quando se enchia

por esta rua não passa
quem passava por ela
se ontem ainda fosse
eu saberia quem era
aquela que surge
na casa da esquina














amei o que parecia
pensando o amor
como se fosse
aquilo que houvera entendido
desentendi o quanto sabia
descobrindo depois
no amor verdadeiro
aquilo que não houvera pensado











no silêncio e no escuro
tudo começa
tudo termina
o brilho fica no meio
enquanto a flor desabrocha
enquanto o fruto madura
o quente e o frio
o úmido e o seco
o medo e a coragem
a paz e a discórdia
elos da mesma corrente
que se estende e circula
reta quando a roda se abre
roda quando a reta se fecha
o que se olha
o que se ouve
o que se sente
o que se espera
o que não se enxerga
o que não se escuta
o que não se toca
o que se encontra
onde tudo se apaga
onde tudo se acende














você fala baixinho
você é toda macia
suave no corpo e na alma
você á tão delicada
que penso comigo
que será convidada
pela delicadeza
para ser sua amada

sexta-feira, 28 de julho de 2017















receio que viver
seja diferente de como tenho vivido
observo como vivem os outros
para descobrir se é melhor viver como vivo
ou se deveria viver como eles vivem
não sei também se isso é adequado
pois me parece que cada um vive à sua maneira
e não há um jeito que se diga o certo
para aqueles que estão nessa vida
às vezes viver me parece tão fácil
tudo acontece conforme o esperado
nada me falta e eu me alegro com aquilo que faço
mas se outras vezes tropeço
viver me parece tão complicado
que não sei o que faço para saber como prossigo
penso nas árvores 
e quem sabe poderia viver como elas
sem pensar nada disso que vivo pensando
penso nos bichos e os vejo tranquilos
sobrevivendo como se a vida bastasse a si mesma
árvores e bichos se os consulto não me respondem

diante de tudo isso só me restam tempo e espaço
tempo para que continue pensando
espaço para que o caminho se faça
se a resposta que busco for essa mesma viagem

então só espero
que o medo nunca me vença
que coragem nunca me falte












contaram-me um segredo
sinceramente
não gosto que segredos me sejam contados
guardo-os comigo com todo cuidado
temo por eles com medo de que fiquem sabendo
pode ser que me escapem sem que eu perceba
pode ser que me acusem por não guardá-los devidamente
você, meu amigo, me conte seus casos
sou teu ouvido para toda conversa
fique à vontade e me fale sobre tudo que queira
só te peço que não me conte uma história secreta
livre me dela 
pois sei quanto esse fardo me pesa
pois sei quanto me custa jamais poder dispensá-lo











você alude a coisas
das quais não me lembro
não sei se delas me esqueço
ou se não estava atento
quando elas se deram
afinal estivemos juntos
por todos esses anos
que não são poucos
e que se bem somados
já passam dos trinta
quase chegam aos quarenta
meu Deus, quanto tempo!
será que isso está certo
ou será que confundo
e me atrapalham os números?
parece que foi outro dia
não parece que está tão distante
seu vestido era rosa
meus cabelos ainda os tinha
Gonzaguinha fazia sucesso
todos amigos estavam presentes
por favor não insista
pois não me vem à lembrança
quem sabe outra hora
a memória me valha
e eu me lembre da história
agora só me responda
onde estão meus chinelos?
onde está meu pijama?









você se encontra melhor com o mundo
se falar com o amigo
se passear pelo campo
se ouvir um adágio de Bach
se ler um poema de Cora
se abrir a janela e olhar as estrelas
se desligar o aparelho e fugir do anúncio
que te procura a todo instante
e nada acrescenta à tua essência
e só te devora
e só te consome
e te faz tão mesquinho
que você não percebe
que já não fala com o amigo
que não passeia no campo
que não ouve um adágio
que não lê um poema
que não abre a janela nem olha as estrelas
e mal se dá conta 
que te vendem e te compram
sem que te paguem nada por isso











a pátria é um povo em uma que ama
o capital não tem pátria
se vale do povo
se vale da terra
a pátria prospera se o capital se divide
e o povo decide qual é seu destino

a mesa farta se apresenta pra todos
e pelo trabalho se paga o preço devido
isso acontece numa pátria que é justa

o capitalista entende a justiça como parceira do lucro
a fome e o quanto se nega pela labuta
ele acrescenta à sua ganância

o capital bate asas e voa ninguém sabe pra onde
o que resta por onde ele passa
é vida que se lamenta
é morte que sobrevive

uma pátria que é terra
uma pátria que é povo
um povo que ama a sua terra
não se entrega e resiste com sangue
à sanha do capitalista













teus olhos me interrogam
eu os deixo à vontade
para perguntar o que quiserem
para descobrir o que for preciso
eles sabem o que procuram
eles sabem o que fazem
para encontrar aquilo que desejam
por isso me olham bem lá no fundo
e eu sei que é lá que eles olham
por isso os deixo à vontade
porque quero que vejam
onde os tinha guardado com tanto carinho













são assim os meus versos
jamais poderiam ser diferentes do que aparentam
são desse jeito porque se parecem comigo
e tais como filhos me identifico com eles
escrevo aquilo que falam
e eles me dizem como desejam que sejam escritos
eu os entendo e eles me explicam
são brancos, pretos, vermelhos
são líquidos, sólidos ou evaporam quando menos espero
se penso que os tenho comigo eles me fogem
se me distraio e nem lembro que existem
eis que aparecem querendo me fazer companhia
somos eu e meus versos formas diversas do mesmo
quem os encontra a mim se apresenta sem que eu esteja
quem os entende sabe a verdade daquilo que escrevo














o Dakota seria seguro
se o louco não estivesse
no meio da rua
cheio de fúria

o ódio suprime
o pensamento sublime
faz tempo que o ódio condena
envenena, queima, mutila

odeia quem rejeita o estranho
odeia quem teme o desconhecido
odiar é viver iludido
adorando a verdadeira mentira

nada é tão firme que não estremeça
nada fenece que não renasça
o que se elimina em nome do ódio
renasce mais forte quando menos se espera










o relógio te chama
você não se mexe
o relógio te grita
você se vira na cama

o trem vem de longe
alguém abre a cortina
o sol ameaça
invadir teu espaço

você se concentra
nos ruídos da máquina
a cortina se fecha
o sol vai embora

a estação se aproxima
você desembarca
seus olhos se abrem
a viagem promete


















se Roma estivesse mais perto
quem sabe eu iria
a pé ou de bicicleta
se fosse preciso
se me desse vontade
já sei o nome de muita coisa que existe
já sei onde fica aquilo que me interessa
um dia ainda saio de casa
um dia ainda gasto o que me faz falta
um dia ainda me encontro
perdido no mundo
no centro de algum picadeiro









o pai que é nosso
se multiplica por todos
o pai desconhece
qual é nosso nome
contenta-se apenas
que sejamos seus filhos

o pão necessário
ele nos dá sem que peçamos
se pão não há ou pão se perde
não é por ele que isso acontece

sua casa é nossa morada
e portas permanecem abertas
se nela há portas fechadas
isso acontece não por sua vontade

o pai se alegra
com o perdão concedido
o pai é amigo
para o consolo esperado
que sempre provém
da sua candura e da sua palavra

o pai vigia a semente
do mal para que não germine
mas se ela prolifera e vigora
o pai ressente e resiste
livra seu filho do mal que o aflige












a vida pode ser tudo aquilo que você pensa
a vida é imensa não cabe no seu pensamento
a vida é a morte ao contrário
pode ser que seja isto
mas a morte te intriga
e você também ignora o seu significado
restaria viver e morrer sem pensar em tudo isso
caso não fosse o pensamento aquilo que te define
então você sofre e se alegra
então você sonha e desperta
então você abraça e se afasta
então você lembra e esquece
então você se pergunta
como é que se vive da melhor maneira
e isso incomoda porque a resposta é incerta
então você olha para todos os lados
e percebe que muitos te olham
então você se consola e descobre
que a tua resposta começa
quando você considera a existência do outro












folhas ao vento
secas
amarelas
pão de formigas
minha sombra me alerta
que sobrevivo e resseco
sinto que o vento me abraça
resisto e prossigo
penso naquilo que fica
penso naquilo que passa
alguém canta um verso
um verso que fala
da eternidade daquilo
que não se demora

sábado, 22 de julho de 2017



















No muro amarelo
alguém escreveu
que amava Alice
o muro amarelo
que não sabia de nada
vai contando agora
pra todo mundo que passa
que Alice é amada
por alguém que acredita
que Alisse se escreve
com S do sapo












Atravessei cordilheira
percorri oceano
voando, voando
me fiz passarinho
pra saber se gostava
pra saber se queria
aqui neste mundo
é assim que funciona
você escolhe como prefere
retornar nessa vida
por enquanto prossigo
voando, voando
até ver se decido
se é disto que gosto
se é isto que quero











Se nada te cura
você é doente
você sofre com aquilo
que rouba seu tempo
que amarga seu fígado
que controla sua mente
você corre e dispara
você briga e se fere
você acumula e se sobrecarrega
quanto mais você ganha
mais você soma
quanto mais você encontra
mais você busca
que assim permaneça
e você morra à vontade
que a sua doença envelheça
e conviva sempre contigo













O Livam era mudo
Com ele éramos quatro
Que morávamos perto
Quase um ao lado do outro

Vivíamos juntos
Fazendo o que nos era agradável
E assim percebíamos possível
O mundo do jeito que então se mostrava

Se chovia contávamos histórias
Cada qual tinha a sua
Um que dizia três escutavam
Enquanto a chuva caia lá fora

Esse era o dia
Que o Livam mais gostava
Quando à hora chegada
Era escolhido pra subir no tablado

Ali a palavra se transformava
O lobo surgia cheio de astúcia
A inocência vestia a menina indefesa
E se a floresta era escura
Nós todos temíamos
Que o Livam também se perdesse

O Livam era mudo
E ninguém entendia o que ele calava
Para nós o Livam falava de tudo
Certo de ser entendido
Com a boca fechada
Com as palavras que ele sabia