quarta-feira, 19 de julho de 2017










Quem te mandou um abraço foi Dona Julinha
Perguntou por você e como de praxe
Recordou aquilo de novo
A coitada não esquece
E parece ter sido ontem o acontecido
Acho que ela gosta de ti
Mais do que a Rosa gostava
A velha guarda com muito carinho
Cartas, fotografias e quem diria
Até presentes que você dava pra filha
Diz que nunca entendeu a atitude da Rosa Maria
Por anos não mais se falaram
E pior ainda se julga culpada
Pelo convite feito ao sobrinho
Naquele justo momento
Em que vocês viviam às turras
Ele não se fez de rogado
Com a Rosinha bem chateada contigo
Depois quando inventaram
A história daquela outra moça
Ela então não se deu por vencida
E foi vingativa prevendo que te atingiria
Você exagerou fingindo de morto
E aí... pois é, o resto a gente já sabe
Tá certo, falo pra ela que você retribuiu o abraço


segunda-feira, 17 de julho de 2017















Antenor "Canjica" Carvalho,
o próprio, não poderia ser outro
Descobriram até o apelido
e contaram quase a história toda
Só não contaram essa do filme
por que não poderiam de fato contá-la
Nós a descobrimos ali mesmo na hora
e só nós sabíamos o significado daquilo
Isso porque o Kaledi
tem boa memória e foi insistente
Acontece que o Canjica desde pequeno
se apaixonava por algumas coisas
Não sossegava enquanto não as conseguia
e quando as tinha, guardava também
tudo que se relacionava com elas
Foi por isso que quando morreu
virou notícia
Tamanha era sua fama 
e o depósito de coisas que ele mantinha
O filme era do Mazzaropi
De quando Mazzaropi era um nome
que chamava gente de todo lado
E o cinema era um luxo
que se permitia de vez em quando
Na sexta começava
e permaneceria por toda semana
Logo de cara o Canjica se apaixonou pela fita
Mas só agora é que ficamos sabendo
Deduzindo o que deve ter ocorrido
Ele deu um jeito de surrupiar o filme do Mazza
e cuidou para que não ficassem vestígios
Deixou preparado o outro,
que começou a ser exibido
Quando no sábado com gente de todo destino
Perceberam que era um Tarzan muito antigo
e que o Mazza tinha sumido
















O Medina ?
Convém visitá-lo, mas nunca se sabe
como será a visita
Às vezes ele te reconhece
e se lembra de tudo
Outras se senta e fica olhando
como se não olhasse pra nada
Dizem que a lua tem influência
Conforme sua fase 
ele age de certa maneira
Não comungo essa ideia,
só divulgo aquilo que escuto
Por vias das dúvidas,
sugiro a lua crescente
Falam que nela
ele se sente mais à vontade
Onde ele mora ?
Na casa velha da Dona Efigênia
Ali onde viveu aquele velho diabo
Contam que queimava o menino,
quando julgava que ele merecia o castigo
Morreu aos gritos durante a quaresma
As feridas queimavam e não se fechavam
Direto pro inferno, aquela maldita !
Embora para o Medina tenha deixado
a casa velha da praça
e uma rocinha de cana




















Muito engraçado !
Só você mesmo para acreditar
numa coisa dessa !
Como é que poderia, meu caro ?
Você se lembra do Clemente,
claro que se lembra !
Quem é que esquece 
daquela cara mal feita
daquelas orelhas de abano
daquele nariz achatado
olhinhos pequenos e queixo pra todo lado ?
Você acha que alguma Sarah 
sairia daquela fôrma ?
Só um tonto como você 
que olha e não vê, acredita
A Sarah com aquele rosto perfeito
aquele caramelo nos olhos
e que boca aquela, minha Nossa Senhora !
Aquela escultura não poderia
ser obra do Clemente
E tem mais uma coisa que você ignora
Não faz ideia do que seja ?
Eterno pateta, perdia um tempo danado
com aquela ruiva desbotada
e nem percebia o tanto que a Sarah sofria
por sua causa
Mentira ?
Pois vá e pergunte 
para um outro qualquer daquele tempo
Que seja a Ninita ou até o Fonseca
e você ouvirá isso que afirmo
A Sarah bem que tentou, fez até promessa
para chamar sua atenção
e você com aquela ruiva sem graça
não via mais nada
Pois é, depois foi aquilo
de dizer que ela ficou como o Toledo
por que era rico
Você mesmo acho que também pensava
que foi por causa disso
Pensava, não é verdade ?
Pois é o que digo e não duvide
você é um pateta incurável !















Aquela que ficou na calçada
se você se lembra das primaveras
se você se lembra do arbusto de folhas vermelhas
se você não se esquece
da estrela no canto da praça
você também guarda na sua lembrança
como todo verde brilhava
quando se olhava do alto da escada
e você sabe daquilo que falo
e você também nunca se esquece
quando recordamos aquela que ficou na calçada












Sonhando descia 
pela Celo Garcia
em sonhos tudo é confuso
tem morto vivo
tem casa assombrada
aquele que chega
nunca avisa
aquilo que estava
aparece de novo

Sonhando não se sabe
nem se pensa nada disso
somente se assiste
o que acontece

Pressenti que era ela
na escada da casa
mas aquela era outra
essa que eu via
tinha um jeito de fada
tinha um ar de menina
não sei de quem era
mas tinha uma estrela
numa cesta de vime

domingo, 16 de julho de 2017














Não afirmo que era
mas não parecia estranho
este rosto da foto
conta uma história
que ouvi não sei quando

Eram seis na casa da esquina
as duas meninas mais velhas
os gêmeos brincavam comigo
jamais me lembraria de tudo isso
não fosse essa foto me olhando
como se também perguntasse
se esse encontro estava marcado
e ele também havia esquecido















Se a justiça condena
prevalece o justo
se não permanece liberto
aquilo que foi condenado

Se a justiça liberta
prevalece o justo
se não é condenado
o que carece ser libertado

Com a justa medida
a peça se encaixa
e o movimento perfeito
acontece harmonicamente

Com a justa sentença
a história se acerta
mal julgada a história
o justo não prevalece











Você se disfarça
e disfarçada se engana
quando acredita
que não é reconhecida

Você ofende
quem te conhece
mas não se dá conta
que isso acontece

Você mente
com toda sinceridade
e se deprecia
confiando naquilo que fala

Ninguém te convida
mas você chega na festa
alguém diz o seu nome
você finge que esquece
como se chama













Recordo e repenso
as partes do todo
o que se fazia presente
quando o futuro era incerto
e o passado irrelevante

Não que o futuro
agora se tenha revelado
mas o passado é gigante
repleto de portas abertas
que não foram fechadas
repleto de portas fechadas
que não foram abertas

Da inocência em que não se sabe
à maturidade em que se confunde
resta o livro aberto
resta o site em pdf
resta o mestre que ensina
que só aprende
aquele que nada sabe












Se sigo viagem
a noite me abriga
quem viajava comigo
já não viaja

Se havia um destino
não sei qual seria
esqueci o caminho
por onde iria

O que era perto
ficou tão distante
tantos que éramos
ficamos tão poucos

Se chamo não ouço
nenhuma resposta
os outros não sabem
daquilo que falo

Recomeço onde termino
persisto enquanto consigo
sozinho se aprende
que nunca se alcança o topo do mundo














A vida termina antes do encontro previsto
a morte não espera que o jardim se complete
e as rosas desabrochem em maio

Sua fala é breve e seus olhos se cansam
suas palavras são poucas
mas ainda se entende
o que saí de sua boca e preserva o sentido

Você vai embora se fazendo presente
uma luz se apaga enquanto outra se acende
fica uma história pra ser contada
se não fosse a pressa e você esperasse
tinha alguém que iria contigo

















Você pensa no outro
e não diz aquilo
naquele momento
que deveria ser dito

Você então sabe
que carrega consigo
o peso daquilo
que deveria ter dispensado

O outro é poupado
e não fica sabendo
naquele momento
aquilo que não lhe foi revelado

O sofrimento persiste
em você que não disse
e conserva guardado
aquilo que não te pertence

Quando o outro te olha
você teme e disfarça
você inventa uma história
que o outro finge que entende

Você se engana
com o tempo como aliado
aposta nessa amizade
e faz de conta que não é enganado

Você se demora
e passa da hora
mas o outro te espera
com a alegria de sempre

Você se despede
vai embora mais cedo
o outro lamenta
recrimina sua pressa

Você ainda pensa no outro
mas se o espelho te olha
você foge à pergunta
até quando ?











Aquilo que aprendo
quem me ensina é a terra
só finjo que entendo
a língua dos homens

Do profundo e distante
o mar quem me conta
navego o infinito
nas estrelas noturnas

Acredito nos bichos
quando me olham
amanheço contente
com o canto dos pássaros

O que me comove
sobretudo é a água
sob todas as formas
mais que todas as coisas

Disso que falo
compreendi muito pouco
pressinto que morro
e morro sentido
por não ter compreendido












Meu coração
faz das suas
perde o juízo
comete loucuras

Mas de que valeria
um coração ajuizado
que fosse contido
e não se iludisse ?

Para isso é bastante
o meu pensamento
eterno vigia
que me mantém prisioneiro

coração satisfeito
não despreza aventura
atende o chamado
parte ligeiro

Se tem um menino
que mora comigo
é fácil saber
onde ele se abriga
















- Desde quando você é poeta ?

- Desde quando minha boca era torta

- Mas sua boca nunca foi torta

- Se você sabe
  que nunca minha boca foi torta
  então também sabe
  desde quando eu sou poeta













Esqueci o endereço
lembro da casa de grandes janelas
da jardineira cheia de flores
e de um gato amarelo
que se deitava na porta de entrada
uma escada pequena e logo os móveis da sala
um porta chapéu e bengala com espelho no alto
retratos pelas paredes me olhavam de todo jeito
eu me perguntava quem seriam aqueles
uns agradáveis sorrindo
outros circunspectos pareciam que me interrogavam
e quem sabe até já soubessem
o que ia no meu pensamento
melhor ir saindo com todo cuidado
cada passo trocado e parecia que tudo tremia
ai, se um jarro daqueles caísse
ai, se eu esbarrasse em um deles
- anda logo menino, parece que tá vendo fantasma !
- a Maria Isabel faz tempo que está te esperando, vê se te apressa...
- ô menino esquisito esse diabo !
então mais que depressa saia correndo
mas da Maria Isabel nunca mais eu soube de nada













Há muito tempo
que você me deve um abraço
jamais te cobrei
por isso que você me devia
mas agora já é tempo
da cobrança ser feita
da dívida ser paga
de nos abraçarmos
como um dia combinamos fazê-lo
e foi você quem havia dito
que me abraçaria quando voltasse
que isso era o que você mais desejava
e muito me alegrei desse desejo
por você revelado
amigo te espero 
e não sei se esperando demoro
fica bem claro aquilo que quero
não faço rodeios e nem deixo por menos
cumpre tua parte no nosso negócio
pois que a vida às vezes descuida
e outro abraço funesto desfaz para sempre
aquele abraço esperado






















Falso
turvo
escasso
e o quanto pagamos por isso
e por quanto vendemos
esse mesmo produto
cultivo e colheita
tudo se ajeita
conforme se espera
amanhece de novo
e nada começa
que não estivesse no meio
o tempo que resta
não se demora
você fala comigo
como quem acredita
mas nos seus olhos eu vejo
onde mora a descrença

quinta-feira, 6 de julho de 2017
















Uma era Ana
A outra era Lia
Aonde quer que iriam
passavam pela minha janela
Ana era séria
Lia sorria
o que intrigava
é que depois que passavam
Ana sorria
e Lia fingia
que sorria
junto com ela
eu gostava de Lia
mas Lia pensava
que eu gostava de Ana
Ana contava
pra Lia que ouvia
que quando passavam
eu olhava pra ela
Lia sofria
com aquilo
que Ana falava
mas eu não sabia
do seu sofrimento
e pensava que Lia
jamais me olharia
com o mesmo olhar
que eu olhava pra ela

Uma era Ana
a outra era Lia
Aonde quer que iriam
passavam sozinhas
nunca mais
soube delas
e fechei a janela
por onde as via
quando elas passavam
e ninguém mais sabia
por onde andavam
aquelas meninas
que um dia passaram
uma era Ana
outra era Lia