terça-feira, 31 de janeiro de 2017
















Quando você passou 
acenando pra mim
o sol deu em cheio
num rosto surpreso
que talvez como o meu
assim também se mostrava
então logo pensei
será que era ela?
e ela
será que pensou
que era eu
pra quem acenava?












Ninguém se acomoda
na fila de espera
a moça de rosa
olha de lado
pousa um mosquito
em todos os narizes
a pressa é enorme
a demora é imensa
uma criança chora
meu Deus !
como irrita esse choro !
...não há urgência
volto depois
















Aquele disco era seu
daquele cara que morreu
faltou coragem e não dei

Na faxina que fiz
de coisas velhas guardadas
ele apareceu embrulhado
num papel branco e azul
sobrescrito com cuidado
"imagine, meu amor
se esta canção
pudesse me trazer
o seu coração"















São aqueles dias
dias de nunca
dias de nada
o que se acabou
definitivamente se acaba
como se uma rua
vazia e escura me atravessasse
e tudo fosse esquecido
como se não tivesse partido
naquela viagem
dias sombrios
de nunca mais 
para sempre
de nada 
do que se foi
um adeus sem saudade
esquecido num coração gelado
mas que doí mais que tudo





segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

















Passo por aí
você vai ver
pode me aguardar
quando o luar surgir
zil anos atrás
te apareço bem moço
sem ressentimento ou desgosto
pronto pra recomeçar

















Amanhã tudo termina
após o eclipse previsto
fico por aqui e aguardo
a tempestade que antecederá
a chuva de meteoros 
depois da explosão solar
não prometo mais tarde
a gente se encontrar
naquele mesmo endereço
mas,por favor,tome cuidado
com os buracos na calçada
e os perigos das noites de luar
que ainda quando tudo acabar
haverão de permanecer
cada vez mais brilhantes
por causa de você







A gente ficava
do lado de cá da porteira
e até sobre ela
espiando o gado que descia
para se alojar no curral
a gente sabia e saboreava
o nome de cada animal
Cabana era aquela que fugia
Roceira, a de pele escura
Malhada, a que berrava
dum jeito engraçado
Capivara, a vaca da tia
Cascuda, Tangerina
Abelha, Mancada
e tinha aquela Miloca
com o mesmo nome
da moça da roça
e aí a gente ria
ria porque rir era fácil
fácil como correr,pular
rolar de olhos fechados
sobre a grama macia
ladeira abaixo
até aonde a água escorria
viver era fácil
tão fácil como o voo dos pássaros
que eram tantos no espaço
e que seguiam voando com a gente

domingo, 29 de janeiro de 2017













A perspectiva da chuva
do verde renovado
que começa a brotar
da madeira fecunda

A vida está
nesta simples certeza
e clama o envolvimento
de quem a preserva

Lamentar o cimento
que anula e limita
o leito do regato
a vegetação do charco

Perceber a relevância
do que se prepara,nasce
e naturalmente preenche o espaço
a despeito de toda adversidade

Aprender a olhar nas manhãs
os detalhes da nova estação
repetição aparente
do que se pensa já visto













Vai-se embora "O Operário"
sem nenhum protesto
ou qualquer tentativa
que possa impedi-lo

Deixará-nos para sempre
não somente a obra de arte
mas uma rica memória
da nossa pobre cidade

Cabe-nos toda culpa
deste absurdo impensado
ignorância e descaso
são os nossos aliados

Não me ocupo do mérito
a questão é secundária
o quadro em tela
é bem de família não se penhora

Esse imperdoável descuido
será motivo de vergonha
dissipará nosso legado
e o de gerações futuras

Não ficarão impunes
os cúmplices deste sacrilégio
juntar-se-á tal desatino
aos escombros do velho colégio



















Todo crime
esconde um culpado
todo culpado
esconde uma desgraça
toda desgraça
esconde um sofrimento
todo sofrimento
esconde um lamento
todo lamento
esconde uma lágrima
toda lágrima
pede consolo
todo consolo
pede perdão
todo perdão
é humano
todo humano
esconde um crime




















Ouvir o poeta mestre
memorizar seu verso
como se fosse seu verso
feito por mim para dizê-lo à tarde

Quando aquele sol imenso
dourando o poente se vai de partida
algo em mim também se parte
por causa da tarde e deste verso











As palavras geralmente
transcendem seus significados
há nos vocábulos um mistério
que traí nosso entendimento

Parecem às vezes
falarem por si mesmas
e nos dizem coisas
contrárias ao que se diz delas

Viaja para longe
que as pronuncia na mente
descobre-lhes a melodia
vai muito além dos limites

Qual astros no espaço
são pontos infinitos
e as seculares universais
afiguram-se eternos monumentos

Quando isoladas nomeiam
o concreto e o abstrato
reunidas na fala ou papel
são como fogo que se espalha

Se sublime impulso
fino artífice ordena
faz-se majestosa a palavra
salta no mundo o poema




















É muito tarde
todos já se foram
ouve-se ainda o relógio
no silêncio da sala escura

Desvaneceu lentamente
toda história vivida
cada qual levou consigo
seu capítulo que  a compunha

Resta um vazio injusto
onde tudo e nada
misturam-se indiferentes
sem que se possa separá-los

A plena certeza
-fantasia que se tinha-
feito mina abundante
repentinamente seca

O desequilíbrio iminente
frente a elo desfeito
o sentido da semente
perdido para sempre

Ave atônita
exposta à liberdade
agora se dá conta
de seu bando ausente



















Flores vermelhas e um cavalo branco
ao passar por um beco
à tardinha os encontro
prontos à espera da noite

Vai findando esse dia
que poderia ser tanto
nenhum espanto,nenhuma alegria
flores vermelhas e um cavalo branco

















Adalgisa não era o nome adequado
para a dona daqueles olhos castanhos
que subitamente se detiveram em mim
não ávidos, nem ardentes
sim curiosos,inocentes

Quando foi isto?

Talvez o nome nem fosse Adalgisa
poderia ter sido Dinorá ou Berenice
os olhos castanhos eu insisto
castanho claro como mel
mel puro
mel em miolo de pão 





Rapidamente
ao passar por Florença
Encontrei minha avó
cem anos atrás

Indiferente
à minha surpresa
às vindouras tormentas
brincava menina na rua

Nada que lembrasse
os brancos cabelos
a fronte vincada
o lento caminhar

Saltitante
Entre seculares monumentos
soberbas construções
pleno anjo anterior

Ó desventura minha !
sabedor daquele destino
frente ao angélico sorriso
despojado de qualquer pressentimento

Ai, visão !
desvaneça do meu pensamento
mostrai-me ó céus de Florença
Benfazeja minha avó no firmamento

















A lua finge que não me vê
a lua é louca
louca como você
que quando me via
seu olhar se perdia
e também fingia
que não queria me ver
Os demais seres vivos
e nós os pensantes
que inventamos a roda,a rosca
as ruas de todos os lugares
por onde multidões vieram
por onde multidões se foram

Os demais seres vivos
e nós os pensantes
que aprendemos,curamos
oramos para entidades
que nós mesmos criamos
e nas quais confiamos
plenamente

Os demais seres vivos
e nós os pensantes
que nem sempre nos reconhecemos
que determinamos massacres
que decretamos sofrimentos
e perfidamente
nos cobrimos de glória

Os demais seres vivos
e nós os pensantes
construtores de abrigos confortáveis
imunes às pragas
e a qualquer perigo
desoladoramente impenetráveis
áridos,gelados

Os demais seres vivos
e nós os pensantes
atribulados pelas necessidades
confusos nos movimentos
perdidos em cálculos sistemáticos
subtraídos da nossa existência

Os demais seres vivos
e nós os pensantes
que somos feitos de sonhos
e dos sonhos nada sabemos
e assim como eles
surgimos e desaparecemos
ao acordar


















Quando alguém querido se vai
ou um sentimento profundo
morre dentro de nós
esta é a hora
da reforma começar
todas as coisas que ficam
permanecem no mesmo lugar
é preciso repensar as coisas
e fazer renascer aquele lugar
não queira fugir
e levar consigo
seja lá para onde for
o que se pretende deixar
ali onde você está
você esteve e sempre estará
melhor arejar o pensamento
e esquecer o que puder desprezar
não embolore com a umidade das paredes
nem resseque com a poeira nos móveis
replante outra vez o canteiro
para que novas cores se façam
flores notáveis em seus cabelos



















Não há qualquer controvérsia
a respeito do desencontro
das paralelas
mas é certo
que se conheceram
e se aproximaram
quem sabe até
 sofreram apaixonadas
diante de um amor proibido
que nem no infinito
foi possível viver
















Trava-se uma dura batalha
entre a palavra e o sentimento
que se quer
vivo e verdadeiro
muito bem pronunciado
revelado por inteiro
nos versos do poema

sábado, 28 de janeiro de 2017








U








um sol desfigurado
encoberto
por nuvens em rebelião
saídas de lugar algum
desprovidas de sentido e direção
nuvens em profusão
reprimidas
tamanha resignação acumulada
dilaceradas por ventos desesperados
confusos,aflitos,violentos
tempestuosamente inusitados
um tempo desolado
acometido de sofrimento
condenado a um choro incontido
intenso e desmedido
capaz de permanecer
até quando surgir
um outro amanhecer