quinta-feira, 21 de dezembro de 2017













realidade desconfigurada
figuras de outras idades
lascam as pedras
reacendem as trevas
atiçam a besta e nada nos salva
nem o dilúvio, nem o profeta
nem as cruzes, nem as rezas
nem naves alienígenas
repletas de luzes acesas
o copo vazio
e o  amargo do não digerido
da anti festa fascista
é tudo que resta

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017














um pouco de céu
um pouco de mar
eram céu
e cismavam sem ver
eram mar
e fingiam querer
leitura da cor
que aprendi com o azul











chamo de alma aquilo que permanece
se penso naquilo que permanece
chamo de essência
chamo de eterno
enquanto meu corpo evanescente
se excita e se acalma dentro de outro
e não chama nem pensa mais nada










Uma era bela e não era
Outra era feia e não era
Os olhos de quem olhava a bela
Faziam dela o que ela não era
Os olhos de quem olhava a feia
Faziam com ela o que faziam com a bela
Os olhos de alguém desviu o que era
Belo na bela, feio na feia
Os olhos de alguém despertaram outros olhos
Que viram a feia na bela de outrora
Que desviram a feia e descobriram a bela

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017













escrevo na água
com a ponta dos ventos
aquilo que cuido
e não deve ser dito
cristal transparente
nunca tocado
rosa encarnada
tatuada na alma
verso inaudito
que morre comigo














claro que eram negros
negros esquivos
luzidios
que quando fingiam
clareavam abismos
e neles eu me perdia












o natal já se foi
não vem nunca mais
como sei muito bem
do natal que  não vem
isso sempre me dói
quando chega o natal
relutante pensar
em alguém que morreu

domingo, 17 de dezembro de 2017













"gigante pela própria natureza
és belo, és forte, impávido colosso"



o que veio era moço
farrapo desfeito
esquálido. trôpego. roto.
minguados traços humanos
a moça veio junto com ele
sem olhos. sem face.
cinza. caco. retalho.
dos pés à cabeça
osso com osso com osso
por fim veio a criança
indiferente ao céu risonho e límpido
faminta às margens plácidas
lamento heroico e retumbante
do filho que à clava forte
não escapa à morte premeditada











José, humilde carpinteiro
há muito tempo dizia
madeira de lei
cupinicida adequado
preservam intacta
a sagrada família

sábado, 16 de dezembro de 2017













o caminho te espera
você também espera o caminho
você pensa o caminho
como aquilo que passa
você pensa você
como aquele que avança
o caminho é mais largo
você apressa seus passos
o caminho é estreito
você se cansa e repensa
o caminho é distância
que nunca se alcança

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017












há poemas ocultos
 silenciosos nas sombras
entes imaginários
que o poeta busca inutilmente
navegando solitário 
em seus pensamentos
confessando distraído 
os seus sentimentos











um dia ao abrir a janela
verei a noite prateada
bordada de estrelas
repleta de lua
fecharei então a janela
para que um velho poeta
repousando vencido
continue fingindo
que permanece dormindo








a poesia atrita
por onde desliza
assim esfolada, ferida
mergulha no raso
e atinge o profundo
contudo, se é indagada
responde em silêncio
a respeito de tudo
e confessa aos ventos
que não sabe de nada

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017










Quando olhei para trás
Você me acenava
E alegre ao ver-te ali
Permaneci olhando pra trás
Só depois compreendi
Que meu olhar se lembrava de alguém
E me fazia pensar
Que fosse você aquela que vi



terça-feira, 12 de dezembro de 2017








de onde tudo nasce
viemos eu e você
para onde tudo retorna
iremos eu e você
se por acaso
nestas idas e vindas
encontrarmo-nos
eu e você
até pode ser
que sem percebermos
você seja eu
eu seja você







quando aprendi
descobri o porquê
aí você vem e me diz
por quê?
volto então a pensar
no que vou te dizer

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017








do sol que se mostra
do amor que não basta
do que se foi e não volta
do medo da morte
da criança faminta
do desespero materno
de mãos calejadas
da amargura dos homens
do grito que escapa
da sombra que afaga
do mar e dos ventos
da flor delicada
do culto profano
da ira divina
dos sete pecados
da floresta vencida
dos propósitos das guerras
das mentes insanas
dos efeitos da drogas
dos falsos profetas
do que já foi dito
a respeito de tudo
de mim frente ao espelho
essa cara esquisita
esses olhos cansados
esses poucos cabelos
esse desejo confuso
essa vontade danada
daquilo que seja
apenas um beijo

sábado, 9 de dezembro de 2017













veja você e sua alegria
duas naves desencontradas
dois destinos contrários
uma paira junto ao branco das nuvens
outra avança no escuro das sombras
e aquele sorriso que avisava
o mundo de sua chegada
ninguém mais sabe
por onde ele anda
se viajando pra longe
ou se reprimido nos lábios












até você desapareceu
e de todas as coisas
essa foi a mais lamentável
aquela que a todos 
entristeceu profundamente
havia em você alguma coisa 
infinita e eterna
uma coisa que por todo o tempo
 enganou a todos nós
ou quem sabe 
realmente não nos enganasse
nós é que preferimos determinar
 o que fosse a verdade
e assim a tornamos imortal 
posto que nos era tão necessária
posto que era o fundamento 
para que nos mantivéssemos de pé

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017









pode esperar
o quanto quiser
que só vai chover
e o sol não virá







quem é que viria
já estava previsto
disseram os astros
se fosse mentira
o que os astros disseram
você não viria








na sua oficina
foi ali que ele vivera
quase toda sua vida
não seria agora
que a deixaria
por medo da morte
se acaso ela viesse
como de fato parece
que isso sempre acontece
que fosse ali mesmo
o esperado desfecho
pois que dali ele não sairia










eis que de repente
quando nisto não se fala
nem nisto não se pensa
a morte salta a janela
e me leva junto com ela
mas eis que lá fora
chove tão forte
que livro me dela
e mesmo no escuro
volto pra casa









envelhecemos
e os nossos sonhos
não são mais os mesmos
antes eles eram aqueles
que poderiam tornar-se realidade
hoje são apenas sonhos
sonhos que nada prometem
e mais se parecem
com sonhos verdadeiros









a velha me olhava
com olhos tão lúcidos
que aquilo que nela era velho
rejuvenescia
seu olhar despertava
um mundo adormecido
enquanto falava comigo
sobre coisas distantes
que para ela permaneciam
viajo alegre feito menino
em histórias que contam os velhos
e nessa viagem em que ela ia
eu seguia o brilho dos seus olhos
e viajava junto com ela
certo de que chegaríamos
muito além do roteiro previsto







saudades dos dias
que amanheciam em seus gestos
saudades das tardes
que se punham em seus olhos
saudades das noites
que adormecíamos juntos
saudades de mim e de ti
quando éramos moços

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017








do amor eu diria
as mais belas palavras
e escreveria uns versos
os mais lindos que existem
ah, se eu soubesse
palavras que poderiam ser ditas
ah, se meus versos
ousassem escrever o que sinto
mas minhas pobres palavras
calam-se envergonhadas
e meus versos singelos
quase nada declaram
se comigo mora um poeta
isso não pode ser
caso comigo morasse
tudo do amor eu saberia dizer









Morreu?
Vai
Adeus
Fique em paz
Com Deus
Com os teus
Sem mais
Pra mim
Já deu
Agora
Quem vai
Sou eu
Sozinha
Só minha
Inteirinha
Pra eu
Cuidar
Com afeto
Com carinho
Do jeito
Que quero
Que gosto
Com gosto
Com jeito
Com tudo
Que tenho
De melhor
Pra me dar



















só pra dizer
que não te esqueci
passei por aqui

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017










passaram voando
canários da terra
brilhou no seu tempo
estrela de Vênus
os anos e ela
voando, brilhando
não fosse a poesia
mais nada seriam







poeta das vertigens
e dos contrários
se o sol ilumina
cisma no escuro
se a noite convida
tudo é tão claro
escalada arriscada
do monte Everest
queda imprevista
em abismos profundos










a vida foi doce
quando no campo
misturava-se o gosto
do figo, do jambo
da pitanga, do coco
e o amarelo da manga
escorria
pelos cantos da boca